Deus, na plenitude dos tempos, revelou-se aos homens na pessoa de seu Filho Jesus, elevando assim a compreensão humana do próprio Deus e dos seus desígnios para com a humanidade. E, o desígnio de Deus é que o homem sacie sua sede na Fonte que jorra água viva, onde toda limitação é dissipada pelo infinito amor do Pai, que presenteia a humanidade com a doação de seu Filho na ação do Espírito. Deus chama o homem para viver a Sua vida. No evento Pascal, Deus se revela Trindade. O Mistério Pascal é a revelação histórica concreta de Deus – Amor – Trindade. Porque Deus é Trindade, cria e destina o homem a participar da comunhão divina.

Seria muito simplista pensar que o Antigo Testamento nos revela o Deus Uno, e o Novo Testamento o Deus Trino, embora esta afirmação possua algo de verdadeiro. A distinção entre os dois testamentos não nos deve fazer esquecer sua profunda unidade, e vice-versa: porquanto, assim como o Novo se esconde no Antigo, também o Antigo se torna claro no Novo.

Deus, Pai, é a fonte, a origem sem princípio. É aquele que assegura a unidade da Trindade, sendo a única fonte da divindade. Seu ser está empenhado e se esgota na geração do Filho, uma vez que Deus faz habitar Nele toda a plenitude de sua divindade. Também Cristo só existe nessa geração. A paternidade de um é absoluta, e a filiação do outro é total.

Deus gera pelo Espírito, que é amor. Ele é Pai pelo amor que tem ao Filho. Sua paternidade é mistério insondável: Ele, em seu infinito amor, gera o Filho por toda a eternidade, e a relação de amor do Pai para com o Filho, e do Filho para com o Pai, expira o Espírito Santo, que é igual ao Pai e ao Filho em divindade. Eles são de uma única substância ou essência, não há contradição entre Eles: o que um é, os outros também são; é uma profunda relação de amor e unidade.

A geração do Filho, que é a origem da criação, é também seu futuro: “tudo foi criado na direção Dele” (Cf. Cl 1,16). A atividade do Pai tem por termo sempre o Filho; portanto, Deus cria o mundo encaminhando-o na direção de Cristo. O mundo nasce num movimento que o leva na direção do Filho em seu eterno nascimento. Em seu eterno nascimento, Cristo é o alfa e o ômega da criação (cf. Ap 21,6); o alfa do qual surgem as criaturas, e o ômega que as chama e plenifica. É assim que, em sua vida terrestre, o próprio Jesus partia de seu eterno nascimento filial e ia à direção dele.

Jesus é o Filho que sai do Pai (cf. Jo 13,3). Sua vinda a este mundo é um prolongamento de sua eterna saída. Em sua glorificação junto do Pai (cf. Jo 17,5), Ele está assentado à direita do Pai (cf. Mt 26,64), plenamente assumido na condição divina como Verbo eterno: “Verbo de Deus” é seu nome (cf. Ap 19,13). Em seu mistério de morte e glória, Ele revela sua identidade de Filho eterno que nasce de Deus no Espírito Santo. O Pai gera o Filho no Espírito, que é amor. Ele o gera amando-o. E, é no mesmo amor que o Filho desempenha Sua missão: mediador da graça filial.

Mediador da graça filial, Jesus é a porta pela qual Deus convida os homens a entrar, a fim de tomarem parte no banquete trinitário. E, o título de Filho (de Deus), mais do que qualquer outro, indica a identidade última de Jesus, já que Ele supõe em evidência a unicidade de Sua relação com o Pai. Existe uma íntima conexão entre a relação de Jesus com Deus (Pai), e sua condição de salvador dos homens e mediador da graça filial. A atividade do Filho é a que o Pai lhe confia para exercer; a reconciliação é, em primeiro lugar, obra do Pai. Sendo Deus o Pai essencial, seu papel, na redenção como em todas as suas obras no mundo, é o de gerar o Filho.

O mistério da salvação se recobre com o da encarnação. Mediante sua vida e sua morte, Jesus se deixa gerar pelo Pai. Com efeito, como o papel de Deus é o de ser Pai, o de Jesus é o de ser Filho. O drama da salvação se joga na relação mútua entre o Pai e o homem Jesus, Filho de Deus. Sendo paterna e filial, a obra da redenção é cheia do Espírito Santo.

O mistério do Pai, e do Filho e do Espírito Santo se interioriza no mundo para levá-lo à sua eterna realização, isto é, sua salvação. Em seu amor aos homens, Deus entrega seu Filho, gerando-O neste mundo. Deus não podia agir de outro modo. Seu ser se identifica com sua paternidade, e toda sua atividade se empenha na geração do Filho.

Deus, Pai, em seu infinito amor gera o Filho por toda a eternidade e, a relação de amor do Pai para com o Filho, e do Filho para com o Pai expira o Espírito Santo, que é igual ao Pai e ao Filho em divindade. Assim sendo, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho por expiração.

Quanto à missão, “são, sobretudo as missões divinas da Encarnação do Filho e do dom do Espírito Santo que manifestam as propriedades das pessoas divinas” (CIC, 258). O Filho e o Espírito Santo são os que de fato têm missões, pois estes são enviados pelo Pai.

 No mistério divino, o Espírito é o poder operante, o amor no qual Deus gera, e o Filho é gerado. Pela presença do Espírito Santo no fiel, está presente nele o Pai, que gera o Filho e seus fiéis, está presente nele o Filho, no qual os fiéis são gerados. O Espírito está presente porque ele é amor, a geração do Filho pelo Pai. O Filho está presente porque é nele e com ele que o fiel é gerado pelo Pai. Jesus é o mediador, é por ele que se entra na casa trinitária. Essa porta está marcada com o sangue do Cordeiro pascal; ela se abriu “nesse Dia”, isto é, na morte de Jesus, pela qual o Pai gera seu Filho para nós e, para assim, ganharmos à graça da filiação divina.

 

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

 

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